Moura (en)cantada ou nem tanto…

Dentre todos os inúmeros eventos do Facebook dos quais os meus “amigos” facebuquianos gostam de me enviar convites esta última semana que terminou houve um que me chamou a atenção acima de qualquer outro: tratava-se da recriação da lenda da moura encantada do Castelo de Tavira, cuja história conhecida desde a minha infância e que em traços muitos gerais se resume ao seguinte: Tavira era uma cidade moura fortificada em meados do séc. XIII, o vizir (ou qualquer outro nome que era dado ao governante da cidade) tinha uma filha que se deixou morrer de amores por um cavaleiro cristão que preparava o assalto final à cidade. O vizir, temendo o infortúnio de uma tal relação, e como a que a filha se recusasse a segui-lo na fuga da invasão, decide encantá-la por toda a eternidade numa torre do castelo. E ela aí fica para sempre, revelando-se apenas em noites de São João.
Esta é a história mais divulgada. Esta noite, vinha com as expectativas bem elevadas pensando ir assistir à recriação da famigerada lenda que dava para fazer o cruzamento entre dois géneros de romance histórico que à partida não têm nada em comum: romances de capa e espada com histórias “escaldantes” de “Mil e Uma Noites”. Afinal não assisti a uma coisa nem outra. E de escaldante… foi só o dia que se tinha passado, o mais quente até agora em terras que os mouros conheciam como al-Garbe.
Basicamente assisti a uma recriação da época medieval de uma cidade portuguesa, já conquistada e com um senhor que se andava a passear no meio da algazarra da recriação de uma animada rua de cidade medieval qual David Attenborough a falar no meio da bicharada, descrevendo-a com detalhe. Entendo que a razão da recriação fosse mais pedagógica que outra – não conheço pessoalmente o grupo “Armação do Artista” – fazendo depois aparecer uma moira (ou escreve-se “moura”, desculpem!) no meio de fumarada lá no topo do castelo e com todos os medievais com uma infindável vozearia a sussurar : “Lá está a moura, lá está a moura!”. E no fim, apareceu um cavaleiro medieval acabado de sair de uma máquina do tempo de há mais de 750 anos atrás, que, apesar de sobeja idade, ainda teve intrepidez e gana para escalar a velha muralha do castelo. Cavaleiro esse, que apesar de não vir coberto de cota de malha, vinha (e aqui dou os parabéns à produção) apropriadamente com a cruz da Ordem de Santiago d’Espada, como se pode ver da fotografia abaixo. Eu sei que estou a ser demasiado crítico com aquilo que não passaria de uma brincadeira, porque o espectáculo foi ao ar livre e sem qualquer cobrança ! Mas fiquei com a ideia de a história da moura daria muito para entreter muito boa gente e durante algum tempo ! Seria a história de um cruzado cristão que vinha para conquistar mais uma cidade para os soldados de cristo e que no fim acabou sendo ele conquistado pelo amores de uma infiel moura… e mais não digo 🙂

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6 responses to “Moura (en)cantada ou nem tanto…

  1. Gostei do seu post, só é pena que não conheça realmente a lenda… a mesma foi cantada na peça 🙂 tem aqui o link http://imagenscompoemas.blogspot.pt/2008/02/castelos-e-mouras-encantadas.html acho que assim consegue rever a sua interpretação da peça que realmente não achei do outro mundo mas deu para entreter durante um bocado que passou a voar. E mais não digo 🙂

    • Antes de mais, obrigado pelo seu comentário 🙂 .
      A lenda da moura encantada do castelo de Tavira, tal como a conheço, (porque exista outra moura encantada em Tavira, a do poço do Vaz Varela) surge descrita na obra do intelectual algarvio do século XIX Francisco Xavier de Ataíde Oliveira, que na sua obra “As Mouras Encantadas e os Encantamentos no Algarve”, passa em revista todas as histórias que ele recolheu em testemunhos orais por parte das populações locais.
      O poema que cita no link surge citado na mesma obra. O seu autor será o historiador algarvio Estácio da Veiga, sendo o poema extraído dua sua obra “Cancioneiro”. Refere-se a uma canção que é cantada e que se passa após o encantamento da moura. Ou seja, pressupõe que a moura já está encantada e que algum cavaleiro cristão a terá visto após isso. Mais uma vez, a história da razão e de como a moura foi encantada não foi levada à cena.

  2. A Lenda refere-se á Moura que surge no alto do castelo e que o cavaleiro tenta salvar, durante o “folguedo”.
    A mesma é situada no periodo de tréguas entre mouros e cristãos… pelo que entendi da peça que adorei, embora visivelmente amadora.
    A lenda foi recitada em couro, foi feita uma narração a descrever os habitos, oficios e vida social da altura. Dá-se o aparecimento da moura durante a festa, e surge um cavaleiro que se apaixona ao ver a moura, tentando por tudo desencantá-la…
    Creio que quem assiste a um espectáculo destes para tirar o seu melhor proveito deve tentar conhecer realmente o seu conteudo… desculpe se serei demasiado crítico, mas na minha opinião a sua analise sobre a peça denota muita incapacidade avaliatória da sua parte. Mas espero não o desmotivar, deve continuar a tentar.

    • Para responder ao seu comentário, o qual desde já agradeço, baseio-me na obra citada na resposta ao comentário anterior, da autoria do intelectual oitocentista Xavier de Olveira. A peça tem pouco dramatismo (tal vez, só na parte final, quando o cavaleiro Raimundo desespera quando a moura desaparece, aparece dramatismo). Mas entendo a razão de tal, é uma peça mais com fins pedagógicos do que outra coisa. A recriação do ambiente de uma rua medieval é muito bom, realmente, as minhas expectativas apontavam mais para uma recriação do drama completo que conduziu ao encantamento da moura, filha do rei da cidade Aben Fabila (no tempo da conquista do séc. XIII o Algarve estava dividido em “reinos taifas”, sendo cada cidade um estado próprio independente), consoante a obra citada anteriormente. Portanto, teríamos o contexto histórico do espírito de missão dos cavaleiros da Ordem de Santiago, e toda a história das tréguas do cerco da cidade que foram desrespeitadas pelos próprios mouros que as pediram inicialmente, os tais “sete cavaleiros” que foram mortos nessa emboscada e que foram sepultados mais tarde na mesquita da cidade de Tavira conquistada, actualmente a Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo.
      Para os propósitos de ser uma noite de verão e de estar imensa gente em Tavira, é bom “acima de tudo” ver uma moura aparecer no alto do castelo na forma de uma pequena recriação do que quer que seja do que ficar apenas na nossa imaginação. Apesar de não ter correspondido inteiramente às minhas expectativas, no fundo, gostei.
      Aproveito para deixar um link directo para a página da obra citada.

  3. A propósito Agar era o Rei mouro da cidade não um Vizir. Moira pode escrever de ambas as formas. Cumprimentos.

    • Não, a sua interpretação não está correcta. A tradição oral expressa de forma escrita no Antigo Testamento conta que o patriarca Abraão teve dois filhos, um da sua mulher Sara já em idade avançada, chamado Isaac – que veio a ser o patriarca seguinte e pai de Jacob, também chamado Israel, e que foi progenitor das chamadas “doze tribos de Israel” – e outro da sua escrava Agar, chamado Ismael, sendo este último o progenitor de todas as actuais etnias chamadas de “árabes”. É essa a razão pela qual os cristãos também chamam aos árabes “Ismaelitas” ou “Agarenos”. Pode ver que não estou a inventar nada, a própria Wikipédia refere isso: https://pt.wikipedia.org/wiki/Agarenos .

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