Análise de  “O Itinerário” de António Tenreiro

 

Esta é a primeira história relatada na primeira pessoa de viagens de exploração em português em toda a história. Fernão Mendes Pinto (FMP) não foi o primeiro. A diferença de FMP para António Tenreiro é que pelos vistos Tenreiro viveu a totalidade dos eventos que narra, o que não podemos ter a certeza relativamente a FMP. Tenreiro é imparcial para os islâmicos, relata episódios curiosos à luz da mente de um homem do seu tempo. Apear de os locais visitados por Tenreiro não serem completamente desconhecidos dos europeus, o que não se passa com FMP.
De resto, Tenreiro apesar de chamar “Itinerário” à súmula das suas viagens, também efectuou viagens que quiçá se deveriam intitular “Peregrinação”: nomeadamente a segunda parte do conjunto das viagens, em que terminada a missão a cumprir de acompanhar a embaixada ao xá da Pérsia, se decidiu, sozinho e apenas na companhia de cristãos arménios, acompanhá-los em peregrinação a Jerusalém. Infelizmente, foi o percurso menos feliz, porque acabou presou pelos turcos sob suspeita de ser um espião. Mas não queria estar aqui a falar em detalhe das suas viagens. Gostava de referir os pormenores relatados por Tenreiro quando fala de tecnologia ou hábitos das populações de todas as cidades do Médio Oriente que cruzou: desde falar de “como se criam pintos sem galinhas” no Cairo ou dos animais que criam “pedra no Bucho a que chamão Bazar”, o uso de pombos para comunicação à distância pelos turcos ou presenciar as cheias do Nilo.
É em português da centúria de quinhentos que Tenreiro relata as suas viagens: muitos termos podem ter entrado na nossa língua com origem na língua persa como “caravançara” (albergue das rotas comerciais) ou “alarve” (um termo para se referir aos árabes).
Pelo meio Tenreiro discorre sobre figuras da História e vamos ouvir falar de Tamerlão, Aníbal ou personagens bíblicos como Noé, Aarão, Daniel.  A sua formação com base nas escrituras e a sua curiosidade de explorador são o mosto de que é composta a mente do português de Quinhentos: ainda agarrado a um passado medieval, mas ao mesmo, com vontade de enfrentar e desbravar o mundo, solto das amarras de uma interpretação literalista das escrituras: é o explorador renascentista.
As grandes caravanas que faziam as rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente foram palco para as aventuras de Marco Polo, Tenreiro também acompanhou as caravanas e descreve-as com rigor, e sem preconceitos para os islâmicos. A luta entre os persas e os turcos pela posse das terras da Mesopotâmia mais os interesses portugueses em assegurar as rotas de navegação são os fios do grande enredo que nas três grandes partes do todo das suas viagens (especialmente na primeira e mais na terceira, que tem o seu quê de heróico no que viajar por terra a caminho de Portugal a partir de Ormuz para entregar uma mensagem ao rei no menor tempo possível).
Centro e quarenta páginas nesta edição, é mais curto que a “Peregrinação” de FMP. Pode-se ler num dia. Eu demorei mais porque andei interessado em descobrir como se chamam actualmente os locais visitados por Tenreiro, especialmente porque estou a preparar um artigo na wikipédia sobre as suas viagens.

Itinerário by António Tenreiro
Pontuação no Goodreads: 5 estrelas

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Itinerário has 1 rating and 0 reviews: Published 2009 by Estampa, 144 pages, Paperback

Source: Itinerário by António Tenreiro | Goodreads

P.S.: Para quem estiver curioso em conhecer a obra desde já, fica aqui o link para uma edição do Itinerário online, que foi publicada como o volume IV da Peregrinação de Mendes Pinto. No mesmo volume, está o O TRATADO EM QUE SE CONTAM MUITO POR ESTENSO AS COUSAS DA CHINA da autoria de Frei Gaspar da Cruz, quase da mesma época de Tenreiro e que também esteve em Ormuz, publicando o seu relato também antes de Fernão Mendes Pinto.

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