Monthly Archives: Dezembro 2017

Émile du Châtelet (1706-1749)

Patrona das ciências e companheira de Voltaire e sua musa, pela qual o sábio iluminista francês manteve uma relação platónica. Traduziu os Principia Mathematica de Newton para francês com os seus próprios comentários. Para além de ter publicado as suas próprias obras sobre Física do Movimento provando de forma independente de Newton e Leibniz a lei da Energia Cinética em que a energia despendida é proporcional ao quadrado da velocidade (E=1/2mv²), ao contrário de muitos contemporâneas, de que seria simplesmente proporcional à velocidade. Publicou um tratado (Dissertation sur la nature et la propagation du feu) sobre a luz em que previu a existência da radiação infravermelha. Outra obra sua (Institutions de physique) resumiu o conhecimento obtido sobre a Física do movimento de corpos (Leis do Movimento de Newton, Cinemática e Mecânica Geral).

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Graças à sua condição social (ter casado com o Marquês de Châtelet) teve acesso à corte real francesa e correspondeu-se com alguns nomes bem conhecidos do seu tempo. Encontrou em Voltaire a sua alma gémea, mas a sua relação nunca passou além do platónico.
Será, juntamente com Marie Curie ou Hipátia, uma das mulheres mais influentes nas Ciências.Morreu com 42 anos, meses após complicações de um parto resultado de uma relação livre com o poeta Jean-François de Saint-Lambert .

Dela Mais tarde Voltaire diria que foi “um grande homem que teve o único defeito de ter sido mulher”.

 

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Salazar. A história e os detalhes do atentado à bomba de 1937 de que o ditador escapou – Observador

Era domingo, dia 4 de julho de 1937. António de Oliveira Salazar chegava à capela onde iria assistir à missa, na Rua Barbosa du Bocage, em Lisboa. Foi nesse momento que explodiu a bomba que provocou muitos estragos mas que não atingiu o Presidente do Conselho. Ainda que falhado, foi o mais sério atentado à vida do governante português. E o novo livro do historiador António Araújo (que chega às livrarias a 10 de Novembro) conta a história, os detalhes, os envolvidos, as investigações e as consequências desta explosão. O Observador faz a pré-publicação de um excerto.


Origem: Salazar. A história e os detalhes do atentado à bomba de 1937 de que o ditador escapou – Observador

Podcast na Antena 2 (Quinta Essência)

A notícia da Restauração no Algarve (1640-41)

 

O Golpe de estado palaciano que teve lugar no Paço da Ribeira, situado no antigo Terreiro do Paço de Lisboa, e que é ainda hoje citado como o acontecimento mais épico do movimento da manhã do 1º de Dezembro de 1640, teve repercussão imediata na populaça de toda a cidade de Lisboa, que saiu às ruas a festejar o regresso de um rei português à cena europeia e a tomada do destino pelas suas próprias rédeas de um português ao seu reino e ao seu povo.
O espalhar da notícia foi rápido, mas à velocidade de como as coisas se faziam naquele tempo. Veríssimo Serrão narra que no Algarve a notícia terá chegado apenas a 6 de Dezembro a Lagos numa carta ao Governador do Algarve, então o ancião Henrique Correia da Silva, sobrevivente de Alcácer Quibir e antigo alcaide de Tavira. Apesar de anos ao serviço dos Filipes à coroa portuguesa, não teve dúvidas em proclamar a independência após celebrar a missa no dia 8 de Dezembro, e ainda antes disso, despachar correios para entregarem a notícia em carta a todos os alcaides e capitães-mores das restantes praças-fortes algarvias. Imediatamente reuniu um pequeno exército de 2000 homens, e á frente dele, deslocou-se de Lagos a caminho de Castro Marim de forma a garantir daquela que haveria de ser o ponto mais que provável de uma invasão. Curiosamente, nada é referido a respeito da defesa de Alcoutim, da qual os condes de Vila Real (de Trás os Montes) – e mais  tarde participantes numa intentona para restabelecer Felipe IV no trono português – eram também senhores.

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Assinatura de Henrique Correia da Silva, governador do Algarve e alcaide mor de Tavira

Conta-se que o Marquês de Ayamonte, primo do duque de Medina Sidónia, o nobre mais poderoso da Andaluzia e por coincidência cunhado do novo rei João IV, mandou um correio perguntar ao governador se precisava de alguma ajuda na resistência no caso de uma investida castelhana em terras algarvias. Isto porque ele e o primo tinham estado na pacificação das revoltas populares no Algarve e no Alentejo três anos antes, quando o próprio governador do Algarve, o ancião Henrique Correia da Silva, sobrevivente de Alcácer Quibir, que acabaria por ser ele próprio a proclamar a independência havia sido nomeado. Um mês depois viria a ser substituída por Vasco de Mascarenhas, conde de Óbidos. Em troca pela sua fidelidade à coroa portuguesa, Henrique Correia da Silva, foi agraciado com o cargo de vedor da fazenda, acabando por falecer em 1644, já octagenário.

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Gaspar de Guzmán el Bueno, duque de Medina Sidónia

No ano seguinte, ele próprio e o primeiro tentaram emular os portugueses com uma revolução independentista que levaria o duque de Medina Sidónia Gaspar de Guzmán a ser rei da Andaluzia. No entanto, a intentona foi descoberta, Gaspar de Guzmán arrependeu-se e foi perdoado por Felipe IV mas a mesma sorte não teve o primo marquês de Ayamonte, Francisco Zuñiga que acabou por ser executado em 1644.

O que é um facto é que Felipe IV foi apanhado completamente de surpresa, pois todos os seus olhos estavam voltados para a Guerra na Europa com França e a Revolta da Catalunha. Os conjurados souberam muito bem tirar partido dessas circunstâncias. Não seria senão em 1642 que o Algarve viria a ser alvo de uma investida castelhana, da qual no entanto não temos documentação que a permita expôr a fundo. Não terá passado de uma troca de salvas de canhão entre as praças fronteiriças de Sanlúcar e Alcoutim, hoje em dia mais preocupadas em querer construir uma ponte que as una.

Portugal naquela altura não se resumia ao território continental, a notícia chegou só no ano seguinte aos Açores, em que o governador castelhano do forte de São João em Angra resistiu a reconhecer a independência.

Na Madeira as coisas foram mais pacíficas e os soldados castelhanos não resistiram à proclamação da independência. Para sul, nas costas africana e brasileira, as coisas foram diferentes, mas a notícia chegou com dois a três meses de atraso, numa altura em que os inimigos no terreno eram os holandeses, e não os castelhanos.
De relatar que a praça-fortes de Ceuta e Tânger, que dependiam do Algarve para abastecimento de comida, soldados e armas, não reconheceram a Independência Portuguesa. No primeiro caso, nunca mais voltou a ostentar a bandeira portuguesa e no segundo caso, apenas em 1644 foi aclamado o rei de Portugal, depois de uma tentativa dos castelhanos de impedirem tal facto, na qual estariam implicados os filhos do adail (governador) português (com raízes em Tavira) André Dias da Franca, que os mandou prender e enviar para Lisboa e serem julgados.

1640 seria apenas o princípio de longos 28 anos de guerra para que Castela finalmente reconhecesse o direito dos portugueses terem o seu próprio rei.

No Algarve foram criadas linhas de defesa como trincheiras, a chamada ao recrutamento geral (para as então chamadas “Companhias de Ordenanças”) para a defesa das praças fronteiriças, e reforçados castelos e erigidas fortalezas para travar uma potencial invasão, fosse ela por terra ou mar.

Felizmente para o Algarve, a maior parte das batalhas da longa guerra travaram-se entre o Alentejo e Extremadura espanhola, na qual no entanto diversos terços (o nome dado às unidades básica do exército naquela) de ordenanças algarvios foram chamados a prestar serviço na guarnição de fortes na Raia e em vários batalhas.

 

A Tomada do Paço da Ribeira no 1 de Dezembro de 1640

 

( tal como descrita na História de Portugal de Veríssimo Serrão pp. 18 do Vol. V)

Pouco antes das 9 horas, os conjurados e seus aderentes, em número de 120 pessoas, dirigiram-se ao Paço da Ribeira, guardado por duas companhias de soldados castelhanos e tudescos, e investiram pelos vários salões, enquanto o Padre Gonçalo da Costa disparava vários tiros para anunciar a revolta e fazer afluir a multidão ao Terreiro do Paço. Escondido num armário, o secretário Miguel de Vasconcelos foi abatido a tiro e o seu corpo, ainda com sinais  devida, lançado para a rua, onde o povo deu largas ao ódio que lhe votava como fiel servidor de Castela.  Margarida (de Sabóia, vice-rainha, duquesa de Mântua, e prima do deposto Felipe IV) quis impor-se aos amotinados, mas logo compreendeu que era inútil o apoio à fidelidade, pelo que foi mandada recolher nos seus aposentos. O venerando D. Miguel de Almeida (Conde de Abrantes e sobrevivente de Alcácer Quibir), do alto do balcão principal, proclamou a liberdade da Pátria e a realeza do duque de Bragança como D. João IV. No mesmo dia fez-se o cerco ao Castelo de S.Jorge, cuja guarnição se entregou, e neutralizaram-se os galeões espanhóis surtos no Tejo, começando também o ataque às fortalezas da barra que se renderam nos dias imediatos.

Sem o que viver da população fosse alterado, pois o comércio manteve-se  aberto e não houve, pois o comércio manteve-se aberto e não houve qualquer saque nem violência  contra as pessoas dos castelhanos, Lisboa acabara de assistir a uma revolução em que muitos viam o dedo da providência: «estão as cousas desta cidade em estado que suspendem o juízo humano».

Ou, como referia outra testemunha alguns dia mais tarde: «as cousas estão tam quietas e postas em sossego, que parece cousa isto do Ceo». A acção deveu-se a um grupo de fidalgos, de que não se torna possível registar as biografias, mas em que o principal comando parece ter estado nas mãos de D. Miguel de Almeida, conde de Abrantes, de Jorge de Melo, irmão do monteiro-mor, de D. Antão de Almada, que veio a ser o primeiro embaixador em Inglaterra e de João Pinto Ribeiro, agente do duque de Bragança. Após eles veio um grupo de nobres, quase todos filhos segundos, como D. João da Costa, D. Gastão Coutinho, João Saldanha da Gama, Manuel de Melo, D. António Luís e Fernão Teles de Meneses, D. António de Mascarenhas e outros. A par da conjura estavam vários religiosos ,como  o arcebispo de Lisboa e os padres Nicolau da Maia e Bernardo da Costa, a quem cabia levantar a população.”

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