Monthly Archives: Novembro 2016

Os princípios do Imperialismo Estado-Unidense

Os Estados Unidos da América (EUA), desde a sua independência e como primeira nação a levar à prática num documento os princípios do Iluminismo, sempre pretenderam desde o seu início irem além das iniciais doze colónias da costa leste-atlântica e desde os seus princípio, investiram em capitalizar a sua influência em todo o restante supercontinente americano. James Monroe foi o quinto presidente norte-americano entre 1817 e 1825 e assistiu à independência da maior parte das antigas colónias ibéricas na América do Sul (Argentina em 1816, Brasil em 1822). Querendo exercer a sua influência sobre as recém-proclamadas nações vizinhas a sul James Monroe proclamou a chamada “Doutrina Monroe” em 1823 que simplesmente dizia que os Estados Unidos da América não tolerariam mais qualquer intervenção europeia sobre as suas ex-colónias no Hemisfério Americano, tentando desta forma dar conta de servir de “testa de ferro” às jovens nações sul-americanos.  A máxima usada era “A américa para os americanos”. Numa altura em que a jovem nação estado-unidense já tinha efectuado a sua expansão para oeste tomando conta da Louisiana e adquirindo cerca de metade do seu território actual, preparando-se para dar o assalto às restantes possessões da Espanha para oeste que tinham-se tornado independentes como fazendo parte recém-criado estado do México (1810), expansão esta que terminaria 20 anos depois, com a guerra mexicano-americano que traçou as actuais fronteiras entre os Estados Unidos e o México e a incorporação da ex-república mexicana do Texas na União (1846).
Com o território continental contíguo consolidado praticamente até 1860, os Estados Unidos para na prática passarem a afirmar-se como nação com ambições imperialistas tiveram de esperar cerca de 50 anos, durante os quais precisaram de abolir a escravatura, enfrentar uma guerra civil que ameaçava segregar a União (1861-1865) por causa deste último factor de produção obsoleto.
Foi no entanto apenas já no século XIX e sob o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) que finalmente os Estados Unidos passaram da teoria à prática, ainda antes de Roosevelt se tornar presidente, este chefiou a invasão americana como coronel para libertar a ilha de Cuba do colonialistas espanhóis (1898) e que teve como resultado final a sua independência. Theodore Roosevelt (TR, como os estado-unidenses gostam de abreviar) tornou-se presidente dos Estados Unidos fruto de um capricho do destino (1901) após o assassinato inesperado do recém-empossado presidente William McKinley, sendo TR, que, na prática quem criou a ideia dos Estados Unidos como “polícia do mundo”. Ficou para a posterioridade o termo “big stick” (“grande bastão”) que empregou para se referir a todos as ameaças estrangeiras às recentes ambições extra-territoriais dos EUA.

Passou à posterioridade a intervenção de TR no Panamá, pois desde há praticamente 50  anos e desde que os EUA tinham, através da sua contínua expansão territorial, alcançado a costa do Pacífico, a ainda incipiente Marinha Estado-Unidense enfrentava grandes dificuldades para defender a recém-adquirida costa oeste de uma eventual incursão de oeste, necessitando para tal de contornar todo o supercontinente americano por Norte ou por Sul. A necessidade da sua construção acabou por se tornar, na prática, em obrigação e foi sob TR que esse objectivo foi finalmente cumprido. Após o contacto inicial com as autoridades colombianas (o Panamá era na altura uma província da Colômbia) estas recusaram o preço inicialmente proposto pelos estado-unidenses, achando-o baixo, de maneira que não sobrou outra hipótese ao presidente TR que apoiar um independentista panamiano que lhe garantiu a aprovação da construção do canal em troca da independência do Panamá da Colômbia. A história do Panamá como nação esteve, portanto desde o seu início, inexoravelmente ligada à construção do canal do mesmo nome. Poderíamos-lhe chamar também “Canal Roosevelt”, visto que foi TR o principal obreiro da sua implementação. O próprio TR tornou-se o primeiro presidente a fazer uma visita ao estrangeiro para supervisionar as obras de construção do canal (1906). O canal acabou por ser inaugurado em 1914, estando já Woodrow Wilson na presidência.

Na prática, o imperialismo americano que encontrou em TR o seu primeiro intérprete prático traduziu-se na independência de duas novas nações: Cuba e Panamá, para além, de, claro, a conclusão da abertura do Canal do Panamá.

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O presidente Theodore Roosevelt (TR) empunhando o seu “big stick”preconizando o seu domínio sob todo o Mar das Caraíbas, numa caricatura da época. (Fonte: Wikipedia)

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Pois Trump ganhou, mas … e agora !?

Donald Trump voltou a surpreender uma vez mais, e depois de uma corrida presidencial que durou um ano e onde conhecemos este personagem caricatos e os media americanos nos ensinaram a recear, após tanta fleuma lançada pela campanha de Hillary Clinton sobre se o homem era um machista insensível, racista e xenófobo, acaba vencendo as eleições. Este indivíduo, que prometeu reverter o apoio aos acordos internacionais de combate às alterações climática considerado-as como um artefacto para minar o crescimento económico americano, desinvestir no apoio financeiro à NATO, impedir qualquer muçulmano de entrar no país e, finalmente, naquela que foi a mais propalada medida, construir o tal muro na fronteira com o México, e que promete vir a ser o maior muro da história da Humanidade, só batido pela Grande Muralha da China.

Quem perdeu ? Não foi só Hillary, que subestimou os republicanos convencida que o seu triunfo era inevitável, foram também os próprios “media” americanos que durante estes últimos três meses, colocaram a campanha eleitoral americana na atenção mundial com a mesma a merecer competir com enredos de novelas sul-americanas. Praticamente todas as sondagens revelavam o mesmo resultado: a tal vitória inevitável de Hillary Clinton. Não houve nenhum órgão de comunicação oficial estado-unidense que não manifestasse o seu apoio a Hillary, periódicos americanos com tradição centenária de apoiar os republicanos deram por si a recomendar o apoio a Hillary ? Agora, depois deste desfecho inesperado, a pergunta impõem-se ? As medidas prometidas por Trump vão ser realmente concretizadas ? Não sabemos, e provavelmente ele irá esconder o jogo nos próximos dois meses que se seguem: o mundo vai ficar em suspense até depois do Natal e do Ano Novo. A eleição de Trump é, a não ser que haja algo de mais extraordinário (existirá algo de mais notável do que a vitória de um candidato contra praticamente todas as sondagens?), o acontecimento mundial do ano (para mim, pessoalmente, a atribuição do prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan é o facto do ano). Todas as previsões para o novo ano irão ser, inevitavelmente obscurecidas pelo cumprimento das promessas do controverso candidato republicano no dia 20 de Janeiro, dia do seu discurso de “Inauguration” (como gostam de dizer os estado-unidenses). A Europa, receosa de quais sejam as reais intenções de Trump, apressou-se e, ainda antes da sua tomada de posse, a solicitar uma cimeira transatlântica para esclarecer as dúvidas. O que é certo, é que Trump teve privilégio, sendo ainda apenas candidato, de ser recebido como se já fosse presidente de facto numa visita inesperada, convidado pelo presidente do México, e da qual este último se saiu muito mal. Foi um óptimo ensaio para alguém como Trump, sem qualquer experiência como estadista.
Como irão agora reagir os mesmos media americanos que condenaram, logo desde o seu início a candidatura do “magnate” republicano !? Mantendo a sua coerência, irão, desde logo, pretender continuar a criticar acerrimamente o presidente Trump em qualquer medida que venha a tomar ?
Trump vai esconder o jogo durante os próximos dois meses, e o mundo não vai aguentar tanto tempo de suspense. As previsões de qual venham a ser as verdadeiras medidas de Trump pós-eleição, nem mesmo as mais optimistas para o ano novo irão ser completamente manietadas resultado desse suspense impossível de aguentar.